Arquivo de categoria Causos e Contos

Porservuti

A arte de ser do “Trecho”!

Ser do trecho é arrumar as malas sem saber o que vem pela frente com uma única certeza: eu tenho que me acostumar!

É estar longe da família e dos amigos de confiança e conviver com pessoas que, geralmente, nunca viu e tentar fazer delas seus novos amigos, pois é com eles que estará convivendo dali pra frente.
É não ter todos os dias o abraço da mãe, do pai, dos irmãos, e gastar um dinheirão de telefone para poder apenas ouvir a voz deles.

É ter a alegria de reencontrar um amigo de trecho que não via há anos, se emocionar e constatar que “o mundo é grande, mas o trecho é pequeno”.

É acordar bem cedo para ir pro trampo e não saber que horas vai voltar; mas se sai mais tarde fica feliz de anotar mais uma hora extra no seu caderninho, ou mais uma hora de experiência para os que são mensalistas.

Ser do trecho é sair espalhando que a grana caiu e já aproveitar pra chamar a turma para comer mais tarde (se tiver baiano então…)
É fazer, geralmente, trabalho desgastante e de responsabilidade, correr riscos, e estar sempre com o sorriso no rosto.

Ser do trecho é ficar louco para ir para casa ver a família, sempre está ligado em promoções de passagens aéreas pra poder visitar a família.

É sempre passar um tempão tentando explicar porque leva essa vida e ninguém nunca entende. Não tem como ficar muitos dias, porque não consegue mais ficar longe do trecho… é querer logo viajar de novo.
É ter tudo cabendo em uma mala bem grande, e deixar o resto pra trás por onde passa.

Ser do trecho é ser amigo, ser divertido, ser carente, ser batalhador.
É sempre saber jogar dominó, baralho, sinuca ou totó.
É não ter feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga e sempre está pronto pra trabalhar fim de semana.

É ter a sanidade mental posta em cheque antes dos 5 meses de trabalho..
É ter vontade de desistir, Puxa… tem horas que dá vontade de largar tudo e ir embora… tem horas que bate um desespero… em pensar na turma, na família…

É não se apegar ao teu lar, pois ter que se apegar a um lugar fixo deixará tua alma irrequieta e ansiosa pelo amanhã.

É fazer muita amizade, conhecer lugares diferentes, culturas diferentes, assim a gente fica conhecendo mais o nosso País.

Ser do trecho é uma questão de estilo: ou você tem ou não tem.
Se fosse pra ter um adesivo no carro, o mesmo seria: “Orgulho de ser do trecho”
Só quem vive sabe como somos e como estamos…
Somos Guerreiros e pensamos em um futuro melhor para os nosso filhos.

Tem gente que diz que a gente é bicho burro, mas eu digo: A gente é gente BOA!

PorAGEGO Goiás

Poesia sobre o ciclo das rochas

Poesia sobre o ciclo das rochas

Leandro Caetano de Magalhães (*)

Pra quem vive neste Planeta
E que pisa nesse chão,
O ciclo das Rochas
Eu trago com admiração,
Nesse texto resumido
Do magma ao metamorfismo
Passará por minha mão…

O material rochoso
Quando vem a se fundir,
Transforma-se em magma
Que no vulcão vai fluir.
De lava é chamado
E quando cristalizado
Rochas Ígneas faz surgir!

Nas áreas vulcânicas
Há de se observar
Que as rochas mais comuns,
Os Basaltos (até o Vesicular),
Têm arranjo aleatório
O que não é notório
Pois os minerais, não dá pra se enxergar!

Se a Ígnea Vulcânica
Vira Rocha na superfície,
A Ígnea Plutônica
Não chega aqui na planície,
Gerando o Gabro e o Granito
Pois o Diabásio é um tipo
Mais próximo da superfície!

Pra continuar o Ciclo
Eu trago detalhes,
Sobre outra classe de Rochas
Que são as Sedimentares.
Frutos da erosão
Percorrem vários lugares
Antes de se depositarem
E em rocha se tornarem!

As Sedimentares detríticas
Como o Argilito e o Siltito
Tem o tato macio,
Diferente do Arenito

Que é áspero e friável
Muito mais erodível
Perante os outros tipos.

Conglomerados e Brechas
Não tem estratificação,
Mesmo assim são detríticas
O que os Calcários não são
São Calcita e Dolomita
As classes desse tipo
São químicas, com razão!

A Pressão e a Temperatura
Agindo prolongadamente
Sobre um corpo rochoso
Nas profundezas do chão
Causam a transformação
Do material em questão !

O metamorfismo pode ser
De Contato ou Regional
Mudando as estruturas
Daquele material.
É a recristalização
Dobra, foliação…

A Ardósia é a primeira
No grau de metamorfismo
Depois vem o Filito,
Que é anterior ao Xisto.
O Gnaisse é bandado
E o migmatito, ondulado…

Qualquer das rochas
Está sujeita à alteração,
Em se tratando de um ciclo
Aberto à ocasião.
Pois a natureza não erra,
Quando compõe a Terra:
É pura imaginação!


(*) Aluno da disciplina Geologia do 1º ano / 2004
Curso de Geografia – UFG

PorAGEGO Goiás

CHÁ  DE ANORTITA PURA : um caso patológico, porém cômico.

CHÁ  DE ANORTITA PURA : um caso patológico, porém cômico.

   Bernardo Cristóvão Colombo da Cunha (Viet) –

                         Geól. turma dez/74 – UnB

Vivíamos o esmorecer da década de 60. Era o emblemático ano de l969, um ano após a inesquecível invasão do restaurante CALABOUÇO, no  Rio de Janeiro, em que o jovem estudante-idealista, EDISON LUÍS, tombara ante à bala assassina dos horripilantes fuzis da ditadura militar-facista, cuja dinastia iniciara-se com o golpe militar-fascista  de 1964.

Naquela época eu era conhecido pela alcunha de “SOBRINHO DO CAPITÃO”.

Eis que, maranhense, expulso pela fome, pela miséria e pelo impiedoso e despudorado poder das oligarquias dos Sarneys, dos Vitorinos Freire, dos Newton Bellos, dos Bacelares (…) daquele rincão brasileiro, outrora chamado a  ATENAS BRASILEIRA, HOJE CHAMADO  APENAS BRASILEIRO, aportei, em 1967, em Brasília.

Fui acolhido por um  conterrâneo, hoje expressão política importante  no Maranhão, o qual, devido à rigidez e formalidade com que se apresentava, recebeu logo o epíteto de CAPITÃO. Como ele é quem me dava  o famoso ticket-refeição-de-cada-dia, logo a estudantada, num gesto carinhoso, passou a me chamar  SOBRINHO DO  CAPITÃO. Ao despejar meus olhares incrédulos sobre Brasília, ficava boquiaberto ao contemplar o verde veludo  da grama, a beleza  sem par das lâmpadas  fluorescentes que se projetavam do solo, como se fossem “pés de luz”, a simetria cartesiana das avenidas, a beleza inescondível  dos viadutos.  Eu ficava verdadeiramente maravilhado e, dentro de mim , nascia um inexplicável desejo de mergulhar no desconhecido mundo da história. A história que, na crônica do historiador-filósofo EDUARDO GALEANO, […] é um profeta que caminha com o olhar voltado para traz […], foi, para mim, a primeira grande luz, a grande porta da liberdade, o alimento de minha alma.

Foi aí que fui tomando contato com filosofias.  Fiquei sabedor da existência do, já conhecido, comunismo, mas também soube do socialismo, bem assim do fascismo. E virei  comunista. E virei socialista. E ativista secundarista.

Agora, com o mundo iluminado com diminutos raios de luz da história, comecei a inquietar-me com a ditadura que não me atormentara antes.

Passei a vibrar pela vitória dos vietnamitas: povo pequeno e raquítico como eu, porém, bravo e guerreiro, pois que logrou obter  a vitória, lutando contra um monstro ciclópico, o exército norte-americano.

Os vietnamitas ganharam a guerra de guerrilhas.  Eu fiz festa. Bebi muita pinga de macumba.  Virei, na boca da estudantada, vietnamita. Para os mais chegados, viet. Assim fui para a história.

Deduraram-me ao PAIXÃO [lacaio da ditadura que fiscalizava o restaurante universitário] e tive que fazer os  EXAMES DE MADUREZA. Fí-los e, em seguida,  o vestibular. Aprovado em segunda opção, estudava na área de Ciências Humanas. Consegui ser transferido para geologia, razão de aconselhamento de amigos. Em primeiro lugar, porque Economia era curso visado [tinha-se que se ler Marx, Engels e tantos outras ilustres figuras da história] .Em segundo lugar, pelo fato do amplo mercado de trabalho.

Aí começou a peregrinação.  O nome dos minerais era complicado. O desconhecimento da língua inglesa, para enfrentar  as terríveis petrologias [metamórfica e ígnea] e a dureza de alguns honrados mestres me excitava.

A rotina diária de  minha vida passou a ter uma expressão dicotômica: trabalhar e estudar, estudar.

Às vezes passava a noite no Tribunal de Contas da União, às vezes na sala do 4º ano, tomando café e reativam e fumando cigarros para não dormir.

Se ia ao cinema [saía, eu e o Riba, de “fininho”, sorrateiro, olhando de soslaio]  os colegas de equipe quase me açoitavam: “Vamos estudar, viet, deixa esse negócio de cinema de lado, bicho! Temos que entregar o trabalho e tu ficas sacaneando!…”

Eis que, certo dia, cansado, muito cansado, após uma aula áspera de Geofísica com o ilustre professor  Mendiguren, caí, à noite , nos inefáveis braços inerciais da letargia desenergisante do sono e, assim, envolto por esse aconchego vivificante, dormi. E comecei, em meus devaneios inconscientes, a sonhar.  Sonhei que meu pai, paradigma do meu eu, ídolo singelo, porém, ídolo, houvera contraído um câncer. Diante do fato tão inusitado, nada poderia ser feito, pois  para salvá-lo só mesmo a ingestão  de um forte e gostoso CHÁ DE ANORTITA PURA. Desesperei-me, ante  tão dura sentença. Tomava  uma lâmina delgada e lá identifica um hiperito. Olhava outra lâmina e, então,  definia um quartzito. Vi, até mesmo, uma rocha constituída tão-só de sodalita. Naquele sonho desesperador o Mestre  FUCK  argüia peremptório:

– Tomando-se um sodalitito e o submetendo ao metamorfismo regional do tipo barrowiano, na fácies anfibolito, que produto resultará? Isso eu não sabia; mas isso não me preocupava , pois eu iria consultar o WINKLER  ou o MOURHOUSE  e descobrir. O que eu queria mesmo era encontrar a ANORTITA PURA! Como encontrá-la? Olhava rochas calcossilicatadas (ou calcissilicáticas?) oriundas de Pilar de Goiás ao microscópio, e só via, na série isomórfica dos plagioclásios, anortita com algum conteúdo de sódio, de acordo com os angulozinhos que eu media  com o nicóis do microscópio para determinar o plagioclásio. Era desesperador.

Acordei, após noite de tortura, excitadíssimo. Passei, a partir daí, a pensar no papai. Não mais conseguia dormir. A insônia apoderara-se, indelevelmente, de minhas noites lânguidas e afáveis. A rútila retícula da minha mente opacizara-se:  estava com  ESTAFA. Fui ao médico; tomei MOGADON; VOLTEI A DORMIR  e nunca mais sonhei  com o CHÁ DE ANORTITA, graças a Deus. Meu pai, sem jamais ter contraído câncer, vive  muito bem [hoje está Lá, dando trabalho para o Criador], saboreando do carinho de minha companheira, Veralúcia, do afeto de minhas três filhas Izaurinha, Ana Amélia e Ana Rita e do apreço de meus colegas da comunidade geocientífica.

PorAGEGO Goiás

A Bússola Brunton que dá tiro

A Bússola Brunton que dá tiro

Manfredo Winge


Esta aconteceu no mapeamento da Folha de Patos na Paraíba (mesmo serviço citado na História dos Papafigo), convênio DNPM/Sudene e execução Prospec-Sudene do então designado Projeto Cobre. O mapeamento na escala 1/250.000 era realizado priorizando os perfis de estrada para dar maior velocidade ao levantamento geológico que objetivava verificar a provável extensão regional dos metalotectos da Mina de Cobre de Caraíba no norte da Bahia pela região nordeste do Brasil.

Era assim realizada a “jipologia” pelo Robert e por mim, estudando os afloramentos de cortes de estrada e só saindo para caminhadas maiores quando indispensável.
Assim, nas proximidades do povoado Destêrro, estávamos tomando medidas com a bússola Brunton, de pé e “apontando” (orientando) a bússola paralelamente à foliação das rochas como delineada na estrada de terra sub-horizontal.

Neste momento, vinha uma senhora caminhando (isto foi antes de se divulgar a história dos Papa-figos) com um filhinho debaixo do braço e outro pela mão.
Ela chegou e ficou parada olhando para nós que tomávamos as medidas de direção.
Eu disse para ela: – a senhora quer falar conosco?
Ela olhou desconfiada e disse: – Não sinhô, eu quero passá com os minino.
Falei: – a senhora pode passar!!
E ela: – só depois qui o sinhô dé o tiro

PorAGEGO Goiás

Água Boa de Beber de Nascente em Goiás!!

Água Boa de Beber de Nascente em Goiás!!

Manfredo Winge


Este episódio passou-se em um TF (trabalho final) do curso de geologia da Universidade de Brasília, envolvendo o meu dileto colega Prof. José Caruso Moresco Danni em 1980 no Projeto Goianésia, no estado de Goiás, e uma equipe de alunos dos quais não me recordo os nomes.

Os TF’s ou TG’s (trabalhos de graduação) no Instituto de Geociências da UnB  correspondem a uma disciplina de fim de curso. Um verdadeiro treinamento profissional da geologia ss como deve ser para preparar um geólogo polivalente. São seguidas as seguintes etapas básicas:   preparação (levantamento bibliográfico e fotointerpretação da área), mapeamento geológico (cerca de um mês intensivo de campo), trabalhos de laboratório (petrografia, geoquímica, revisão de fotointerpretação e da cartografia geológica), volta ao campo para revisão de pontos polêmicos e finalização dos estudos com relatório final seguido de defesa oral  do trabalho.

A área do projeto de pesquisa, didaticamente selecionada, é dividida em sub-areas que ficam sob a responsabilidade de equipes de dois ou, excepcionalmente, três alunos cada sub-área. Os trabalhos em todas as fases são orientados por uma equipe de professores. Na etapa de campo, cada professor orientador  acompanha lado a lado os alunos de cada equipe em um sistema de rodízio. A cada dois ou três dias, a equipe de alunos fica sem acompanhamento, tendo que se virar sozinha e por em prática os conhecimentos adquiridos ao longo do curso.

Goiás é um estado muito bonito e espetacular para se fazer geologia: clima ameno em geral, geologia interessantíssima, paisagens lindas, cursos de água normalmente cristalinas e afloramentos em quantidade.

Uma das orientações nos TF’s do IG/UnB é de que se deve fazer geologia privilegiando os perfis de caminhamento ao longo dos riachos onde se tem as melhores exposições de rochas frescas para estudo e coleta.

Pois ia assim, em um dia de julho de 1985, o professor Danni acompanhando uma das equipe de alunos córrego acima, estudando meticulosamente os afloramentos e orientando no estudo e na forma de descrição e anotações em caderneta de campo. A água de beber já acabara há tempos.. os cantis ficaram vazios pois o dia era quente e a caminhada para chegar ao perfil programado fora pesada. A água do riacho, limpa e cristalina, era um apelo. O professor não teve dúvidas: fez uma apologia da qualidade da água, informando que ali  não existia cultivo com agrotóxicos e que, além disso, o fato de estarem, praticamente, nas cabeceiras do riacho e, portanto, junto das suas nascentes indicava tratar-se de água pura e mineral.
Lição de professor não deve ser contestada sem se ter um forte contra-argumento… Dito e feito: o argumento do professor foi definitivo. Todo o mundo esbaldou-se, bebendo a rica e pura água diretamente no riacho.

Saciada a sede, era hora de trabalhar e continuaram a subir a drenagem cobrindo uns duzentos metros onde, após uma curva do córrego, sentiram uma forte catinga e encontraram, afundada em pequena poça do riacho, a carcaça de uma vaca apodrecendo com o bucho cheio de vermes.

PorAGEGO Goiás

A Morte de Calcário

A Morte de Calcário

                                                    Vanderlei Antônio de Araújo

Calcário depois de tomar uma injeção pneumatolítica com o doutor Granito, e pra lá de escarnítico, foi até o bar do Senhor Xisto. Lá chegando encheu a cara. Depois de umas doses de Ácido Carbônico e HCl, e já fervendo, beijou a feia ardósia, dançou xote com a prima marga, sambou um pagode com a mana dolomita e ainda valsou com a irmã do quartzito.

Depois da meia noite, e já avançando pela madrugada, Calcário que alimentava o sonho de se casar a todo custo com a bela Gipsita, conhecida pelas suas inclusões perfeitas e porte monoclínico, teve a audaciosa e carbonatada idéia de fugir com ela. Assim, enquanto todos assistiam ao show da dupla Ritmito e Varvito, Calcário depois de convencer Gipsita a fugir com ele, pagou a conta, transpurrou a porta do bar, pôs os pés na estrada e bandado levou aquela patricinha metida a Aragonita, filha do senhor Evaporito Marinho e Dona Silvita, para bem longe dali.

 A noticia rapidamente se espalhou por toda a vila Estratigráfica. Ao tomar conhecimento do ocorrido o Sr. Anidrita que adora uma cristalização e precipitação saiu correndo e foi à casa de seu irmão Evaporito Marinho sedimentar a fofoca. Ao saber da quimiogênica fuga dos dois precipitados químicos, Evaporito Marinho ficou muito dômico de raiva e fraturado da vida. Foi um verdadeiro terremoto aquela revelação biaxial negativa, principalmente, porque ele não entendia como sua filha gipsita se ligara a um sujeitinho tão ortorrômbico e cárstico como aquele. Ele, que um dia chegou a pensar que ela fosse a paragênese mineral mais singular que tivera em milhões de anos.

Imediatamente foi até seu quarto pegou sua sigmóide dextral e a municiou com granadas miúdas e pisólitos. Depois, foi ao bordel de madame Biotita e lá convocou os mais destemidos e granoblásticos máficos da vila. Logo de cara convidou o desidratado e hipertérmico Granulito, o ígneo Gabronorito e o granadeiro Gondito para acompanhá-lo na busca aos fugitivos. E ainda de quebra, levou o hipabissal Diabásio. Finalmente para juntar-se ao grupo chamou o perigoso e migmatítico Granodiorito.

Enlouquecido e furioso o Sr. Evaporito Marinho, com uma clivagem de força cada vez mais definida e cisalhante, acompanhado pelo seu batalhão de máficos, metamorfisados e magmáticos, saiu ameaçando fundir e cisalhar tudo que encontrasse pela frente. Jurando vingança implacável e afirmando que quando os encontrasse descarregariam suas armas na cara de Calcário. Depois, saiu em ondulante galope e, aos berros, bradava que Calcário não valia uma mica furada, quanto mais uma amostra de pedra-sabão.

De repente, surge encravado numa falha e atravessando- lhe o caminho, um veio de quartzo leitoso que quase provocou uma trágica deformação rúptil-dúctil nos perseguidores e, por pouco não resultou numa tremenda recristalizaçã o dinâmica, atrasando em muito a busca aos dois fugitivos.
Depois de passarem dias e noites à procura dos dois amantes, eles os encontraram escondidos em uma caverna, disfarçados de travertino e alabastro. Evaporito Marinho e seus contratados descarregaram suas armas no raptor de sua filha. Deram tanto tiro que a temperatura subiu demasiadamente; Calcário caiu ao solo e morreu se esvaindo em cal virgem. Gipsita saiu chamuscada e literalmente viúva. Desgostosa entrou para uma Portland e mais tarde se casou com o cimento…

PorAGEGO Goiás

A maldição da Mineração

A maldição da Mineração

 

Conta uma lenda que quando Deus liberou o conhecimento para os homens do trabalho Mineração, determinou que aquele “saber” ficaria restrito a um grupo muito selecionado de sábios.

Mas, neste pequeno grupo, onde todos se achavam semideuses, alguém traiu as determinações divinas. Ai aconteceu o pior… Deus, bravo com a traição, resolveu fazer valer alguns mandamentos:

 

  1. Não terás vidas pessoal, familiar ou sentimental.
  2. Não verás teus filhos crescerem.
  3. Não terás feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga.
  4. Terás gastrite, se tiveres sorte. Se for como os demais, terás úlcera.
  5. A pressa será teu único amigo e as suas refeições principais serão os lanches.
  6. Teus cabelos ficarão brancos antes do tempo. Isso se te sobrarem cabelos.
  7. Tua sanidade mental será posta em check antes que complete 5 anos de trabalho.
  8. Dormir será considerado período de folga, logo não dormirás.
  9. Trabalho será teu assunto preferido, talvez o único, sempre.
  10. As pessoas serão divididas em 2 tipos: as que entendem de mineração e as que não endentem. E verás graça nisso.
  11. A máquina de café será a tua melhor colega de trabalho, porém a cafeína não te fará mais efeito.
  12. Happy Hours serão excelentes oportunidades de ter algum tipo de contato com outras pessoas loucas como você.

13.Terás sonhos com perda de produção, anomalias, abordagens de segurança, placas, datas de entrega, relatórios, e não raro, resolverás problemas de trabalho neste período de sono.

  1. Exibirás olheiras como troféu de guerra.
  2. E o pior… inexplicavelmente gostarás de tudo isso…

30/09/17, 08:55 – Heloisa Helena: Eu acrescentaria: Se for muito sortudo encontrará uma esposa da área, que entenderá suas ausências, dividirá suas elucubrações sobre as dificuldades do último mapeamento e ainda ficará feliz com as amostras mineralizadas que trarás para ela qual troféu de campo…

Porservuti

O Primeiro Caminhão

Autor: Vanderlei Antônio de Araújo

A história de Posse está cheia de lendas e mitos, onde os
acontecimentos reais do passado se confundem com situações imaginadas
ou modificadas pelas gerações posteriores. Um desses mitos é a
história da chegada do primeiro caminhão na cidade, que era contada
por muitos moradores daquele tempo. Hoje, ela faz parte do anedotário
da cidade.

Este fato aconteceu em outubro de 1937. Tudo começou quando Antônio
Clavinote, que na época trabalhava como estafeta dos correios, chegou
de uma das suas viagens e informou ao prefeito que viu, num espigão
entre as cidades de Sitio D’Abadia e Posse, um caminhão da marca Ford
vindo em direção a cidade, Ele vinha carregado de mercadorias para
serem vendidas ou trocadas. O estafeta disse ainda que o caminhão
abria sua própria estrada, rasgando o cerrado com o bico. Antônio
Clavinote era um homem humilde, mas de muita credibilidade, bom
caráter e exímio caminhante. Era capaz de ir e voltar a pé de Posse a
Sitio D’Abadia em menos de dois dias.

A notícia da chegada de um caminhão se tornou o principal assunto das
conversas nas ruas da pequena cidade. Na prefeitura, sobretudo, não se
falava em outra coisa. O prefeito enxergou no evento, a oportunidade
de se promover e logo providenciou uma festa. Comprou fogos de
artifício, mandou enfeitar as ruas e até uma música para a recepção do
veículo foi ensaiada.

Para muitas pessoas, o fato de que pela primeira vez uma máquina
motorizada adentrasse aquela cidade era o prenúncio da chegada do
progresso. Entretanto, alguns moradores que nunca tinham visto um
caminhão e nem sabiam direito o que era, ficaram preocupados e
assustados. Receberam a notícia com receio.

A espera durou pouco mais de uma semana. Até que, alguém, de ouvido
mais aguçado, ouviu o barulho do caminhão e saiu gritando pela rua que
o veículo estava chegando. Imediatamente, uma multidão entusiasmada,
mesmo sem ouvir nada, saiu correndo na direção por onde disseram que o
caminhão chegaria. Mães zelosas botaram seus filhos para dentro de
casa, fechando as portas e janelas imediatamente, com medo do que
poderia acontecer. Depois de alguns minutos um caminhão de bico
comprido e arredondado irrompeu do meio do cerrado e foi se
aproximando de onde a multidão o esperava. Chegou roncando e soltando
fumaça, trazendo no bico alongado, folhas, galhos e capim que
arrancava, enquanto abria a estrada.

Acompanhado pela multidão o caminhão ganhou a rua principal, deu uma
volta pela cidade, e depois parou em frente à prefeitura. Abriram-se
as portas e dois homens desceram. Algumas pessoas, principalmente o
prefeito, chegaram até eles. aplaudindo e gritando de alegria.
Ouviram-se fogos de artifício e vivas. Era o começo de uma era de
progresso para a cidade. As pessoas, mais por curiosidade do que com a
intenção de comprar alguma coisa, cercaram o veículo. apenas para ver
e tocar aquela máquina fabulosa.

O motorista, surpreso com tanta gente, sorrindo, circulou em volta do
caminhão abraçando e apertando as mãos de todos, parecia um candidato
em tempo de eleição. E depois falou:

– Venha minha gente! Aproximem-se para conhecer de perto um caminhão e
aproveitar para comprar as muitas coisas boas, bonitas e baratas que
eu trouxe.

A festa varou a noite completada com um baile no salão da escola
municipal onde todos dançaram e se encharcaram de bebida. No dia
seguinte, vários montes de capim, galhos e folhas apareceram em frente
ao veículo. Foram colocados lá, por pessoas que vendo aquelas coisas
presas no bico do caminhão, pensaram ser estes, seus alimentos
favoritos.

Porservuti

Sócio no Cigarro

Autor: Vanderlei Antônio de Araújo

Muitas empresas fazem anualmente um exame médico para verificar o
estado de saúde de seus empregados. A empresa onde eu trabalhava
também. Eu detestava aquelas consultas porque minha pressão subia na
hora. O médico colocava o aparelho no meu braço e ela disparava. Dizem
que isto se chama síndrome do jaleco branco. Além da consulta, havia
também exames clínicos de sangue, urina, fezes e radiografia do
pulmão.

Certa vez, o médico da empresa ao me examinar notou que minha garganta
estava irritada e ao escutar meu pulmão notou que havia um problema.
Perguntou se eu sentia alguma coisa na faringe. Eu disse que além de
uma tossezinha seca, insistente, havia também uma coceira na garganta.
Eu já conhecia o medico, ele já me examinara outras vezes. Era um
medico competente. Sugeriu que eu fizesse uma radiografia e voltasse.

Quando retornei, olhou a radiografia e sugeriu que eu procurasse um
especialista e me indicou um. Fiquei preocupado por ter que procurar
outro médico. Sentia-me incomodado só em pensar em outra consulta. Não
havia escolha. Ele receitou um remédio para tosse, e enquanto
escrevia a receita, repetia o nome do especialista. Você vai
consultá-lo e diga que fui eu quem o recomendou.

Depois de muita relutância marquei uma consulta com o pneumatologista
indicado. Cinco dias depois, fui ao consultório do doutor. Como já
disse, uma tremenda sensação de desconforto me acompanhava toda vez
que entro num consultório médico. E aumenta à medida que o tempo vai
passando. Mas como um bom paciente sempre aguentei firme.

Levei três horas para ser atendido, pareceu um século. Ao ser
interrogado, falei da suspeita do médico da empresa e lhe mostrei a
radiografia. Vamos ver disse ele escutando minhas costas, mandando que
eu respirasse fundo. A radiografia não apresentou nada grave, disse
ele.

– Está bem doutor, admito que não tenha nada grave, e a coceira na
garganta que às vezes me faz tossir.

Depois de examinar minha garganta, durante uns dois minutos, ele disse
que tinha uma irritação, mas era coisa à toa. Enquanto falava, ele me
olhou firmemente e disse:

– O senhor precisa parar de fumar, o que o senhor tem é nada mais nada
menos que as consequências do cigarro.

Espantaram-me aquelas palavras secas do médico ao falar do cigarro.
Alarmado, respondi:

– Eu não fumo doutor, nunca fumei na minha vida.

Ele retornando a conversa, retrucou sorrindo:

– Não exagere, não vou acreditar. Pare de fumar e se cuide para não
precisar voltar.

No dia seguinte, ao entrar na sala e encontrar meu colega envolto numa
nuvem azul de fumaça, que ele acabava de soprar, pairando sobre a
sala, e buscando o meu pulmão numa viagem sem volta, compreendi o que
medico quis dizer. Naquela época não era proibido fumar em recinto
fechado e ele fumava um cigarro atrás do outro. E eu recebendo,
passivamente, aquele veneno em minhas vias respiratórias, sem saber
que me tornava seu sócio no cigarro, compartilhando do mesmo vício,
sem ser fumante.

Porservuti

Geólogo Beleza

Quem é esse louco que fita a barranca
E depois de contemplá-la em êxtase
Cai-lhe em cima, em fúria bruta
E a esburaca e a atormenta e a espanca?

Que faz aquele bando, no corte da estrada,
Em discussões febris, ao pé do mestre?
Por que o ataque rude, a marteladas,
A espantar o motorista e o pedestre?

Quem é aquele doido, que alisa a pedra,
Que lhe examina com lupa, os detalhes,
Que a tudo registra, com sutil presteza,
E, com afiada lâmina, lhe assenta um talhe?

Que faz aquele tonto, de aparelho em punho,
A medir, quem sabe lá?, que estruturas
De planos surreais, imaginários?
Letras mortas das sagradas escrituras?

E aquele outro ali que, insatisfeito,
Ainda cheira a pedra e a leva à boca!?
Que o recolham às grades, sob algemas,
Antes que saia por aí, de meia e touca!

Mas… Eis ali um jovem, na planície,
A contemplar a serra, inebriado e mudo,
Tecendo mil teorias, explicando tudo
Da ascensão do núcleo à superfície.
A princípio, julguei ser um astrólogo,
Mas, agora, bem de perto… é um Geólogo!
E o sei pelo martelo e a imundície.

Bípede falante, corpo ereto,
Dos gêneros humanos, o mais louco,
De tudo, tudo mesmo, ele é um pouco:
Meio médico, biólogo, arquiteto,
Meio poeta, meio vilão, meio artista.
Escrivão da Natureza e jornalista,
No chão imundo do mundo sem teto,
Bisbilhotando os fósseis escondidos,
Seus ventres estuprados, seus partos perdidos,
Rebentos da Terra… Seus filhos, seus fetos.

Um forte abraço a todos, PJ.