O Primeiro Caminhão

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O Primeiro Caminhão

Autor: Vanderlei Antônio de Araújo

A história de Posse está cheia de lendas e mitos, onde os
acontecimentos reais do passado se confundem com situações imaginadas
ou modificadas pelas gerações posteriores. Um desses mitos é a
história da chegada do primeiro caminhão na cidade, que era contada
por muitos moradores daquele tempo. Hoje, ela faz parte do anedotário
da cidade.

Este fato aconteceu em outubro de 1937. Tudo começou quando Antônio
Clavinote, que na época trabalhava como estafeta dos correios, chegou
de uma das suas viagens e informou ao prefeito que viu, num espigão
entre as cidades de Sitio D’Abadia e Posse, um caminhão da marca Ford
vindo em direção a cidade, Ele vinha carregado de mercadorias para
serem vendidas ou trocadas. O estafeta disse ainda que o caminhão
abria sua própria estrada, rasgando o cerrado com o bico. Antônio
Clavinote era um homem humilde, mas de muita credibilidade, bom
caráter e exímio caminhante. Era capaz de ir e voltar a pé de Posse a
Sitio D’Abadia em menos de dois dias.

A notícia da chegada de um caminhão se tornou o principal assunto das
conversas nas ruas da pequena cidade. Na prefeitura, sobretudo, não se
falava em outra coisa. O prefeito enxergou no evento, a oportunidade
de se promover e logo providenciou uma festa. Comprou fogos de
artifício, mandou enfeitar as ruas e até uma música para a recepção do
veículo foi ensaiada.

Para muitas pessoas, o fato de que pela primeira vez uma máquina
motorizada adentrasse aquela cidade era o prenúncio da chegada do
progresso. Entretanto, alguns moradores que nunca tinham visto um
caminhão e nem sabiam direito o que era, ficaram preocupados e
assustados. Receberam a notícia com receio.

A espera durou pouco mais de uma semana. Até que, alguém, de ouvido
mais aguçado, ouviu o barulho do caminhão e saiu gritando pela rua que
o veículo estava chegando. Imediatamente, uma multidão entusiasmada,
mesmo sem ouvir nada, saiu correndo na direção por onde disseram que o
caminhão chegaria. Mães zelosas botaram seus filhos para dentro de
casa, fechando as portas e janelas imediatamente, com medo do que
poderia acontecer. Depois de alguns minutos um caminhão de bico
comprido e arredondado irrompeu do meio do cerrado e foi se
aproximando de onde a multidão o esperava. Chegou roncando e soltando
fumaça, trazendo no bico alongado, folhas, galhos e capim que
arrancava, enquanto abria a estrada.

Acompanhado pela multidão o caminhão ganhou a rua principal, deu uma
volta pela cidade, e depois parou em frente à prefeitura. Abriram-se
as portas e dois homens desceram. Algumas pessoas, principalmente o
prefeito, chegaram até eles. aplaudindo e gritando de alegria.
Ouviram-se fogos de artifício e vivas. Era o começo de uma era de
progresso para a cidade. As pessoas, mais por curiosidade do que com a
intenção de comprar alguma coisa, cercaram o veículo. apenas para ver
e tocar aquela máquina fabulosa.

O motorista, surpreso com tanta gente, sorrindo, circulou em volta do
caminhão abraçando e apertando as mãos de todos, parecia um candidato
em tempo de eleição. E depois falou:

– Venha minha gente! Aproximem-se para conhecer de perto um caminhão e
aproveitar para comprar as muitas coisas boas, bonitas e baratas que
eu trouxe.

A festa varou a noite completada com um baile no salão da escola
municipal onde todos dançaram e se encharcaram de bebida. No dia
seguinte, vários montes de capim, galhos e folhas apareceram em frente
ao veículo. Foram colocados lá, por pessoas que vendo aquelas coisas
presas no bico do caminhão, pensaram ser estes, seus alimentos
favoritos.

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