Yanomami temem ciclo de violência após jovens indígenas serem mortos por garimpeiros em RR

Yanomami temem ciclo de violência após jovens indígenas serem mortos por garimpeiros em RR

Indígenas comparam a atual tensão com o Massacre de Haximu, que ocorreu em 1993, quando garimpeiros promoveram uma chacina contra os Yanomami e 16 índios foram assassinados. O caso foi o primeiro genocídio reconhecido pela Justiça do Brasil.

Por Fabrício Araújo, G1 RR — Boa Vista

Região onde ocorreu conflito fica no meio da floresta, em área de difícil acesso, em Roraima — Foto: Júnior Hekuari Yanomami/Condisi-Y/Divulgação

Um ciclo de violência pode iniciar em Terra Yanomami após dois jovens indígenas serem executados por garimpeiros invasores da região, é o que teme a Associação Hutukara Yanomami em carta divulgada nesta sexta-feira (26).

De acordo com a associação, um grupo de indígenas encontrou garimpeiros próximo da comunidade Xaruna, em Alto Alegre, e pediu por comida. Os índios não ficaram satisfeitos com a quantidade que receberam, o que resultou em um confronto.

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O conflito ocorreu no último dia 12 e resultou na morte dos jovens Original Yanomami, 24, e Marcos Arokona, de 20.

“Tememos que os familiares dos Yanomami assassinados decidam retaliar contra os garimpeiros seguindo o sistema de Justiça da cultura Yanomami, podendo levar a um ciclo de violência que resultará numa tragédia”, diz trecho da carta.

A Hutukura diz que tensão pode chegar a um conflito similar ao Massacre de Haximu, que ocorreu no ano de 1993 em Roraima. Garimpeiros promoveram uma chacina contra os Yanomami, matando 16 índios. Este foi o primeiro caso reconhecido como genocídio pela Justiça do Brasil.

“Num primeiro momento, os garimpeiros chegam em menor número ao território de uma comunidade e buscam relações amistosas com os Yanomami, oferecendo comida e bens da cidade”, descreve a carta.

Estima-se que 20 mil garimpeiros estejam infiltrados na Terra Yanomami, que é o maior território indígena do país dividido entre Roraima e o Amazonas. Segundo o Instituto Socioambiental, há 26.780 indígenas vivendo na região.

“À medida que aumenta o número de garimpeiros e o assentamento se torna permanente, os garimpeiros ficam à vontade no território e passam a encarar os Yanomami como um incômodo. Os pedidos dos Yanomami por bens da cidade são ignorados e as relações passam a ficar conflituosas”, pontua a Associação hutukara Yanomami.

A carta dos indígenas pede que o assassinato dos Yanomami por garimpeiros seja investigada com rigor e pedem ainda que o governo federal passe a agir para retirar os invasores “que exploram a Terra Yanomami ilegalmente assediando e agredindo as comunidades indígenas que ali vivem”.

O assassinato dos jovens indígenas

O presidente do Condisi-Y, Júnior Hekuari Yanomami, contou ao G1 que após o encontro com os garimpeiros, um indígena foi atingido com tiro e o grupo de Yanomamis fugiu assustado para o meio da floresta. Os disparos continuaram e o outro índio foi baleado.

Os indígenas relataram que a perseguição ocorreu durante a tarde e durou cerca de uma hora. Eles estavam armados com flechas, mas não conseguiram atingir os garimpeiros.

O Condisi-Y foi informado do conflito na terça (23), após contato via radiofonia. O Conselho, acompanhado de equipes da Fundação Nacional do Índio e da Polícia Federal, foram à região na quarta para apurar o caso e retornaram nesta sexta.

Os corpos de Original Yanomami e de Marcos Arokona ainda estão no meio da floresta, onde permanecerão seguindo as tradições de funeral do povo Yanomami.

“A comunidade onde eles viviam está assustada. Ele estão de luto, acampados no meio da floresta”, disse Júnior Yanomami.

Além dos conflitos, autoridades locais temem que garimpeiros levem o coronavírus para a região. O procurador de Justiça de Roraima, Edson Damas, que recebeu denúncias sobre a continuidade de invasão dos garimpeiros no território e afirmou que a situação pode resultar em novo ciclo de genocídio dos povos que vivem na Terra Yanomami.

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